Ciganos e punhais – mitos e histórias

Ficha criminal de Fray Pablo de San Benito (1774). O escrivão desenhou a arma com a qual foi cometida o homicídio, um “cuchillo flamenco”.

Sempre existiram mitos e estereótipos sobre os ciganos. A figura romântica do cigano é de que, apesar de ser de um povo festeiro, é um sujeito armado com uma faca presa em uma faixa na cintura. Exaltado, se um cigano for afrontado, não pensa duas vezes e saca seu punhal ou navalha para resolver a questão. Provavelmente essa imagem deve-se aos toureiros ou porque muitos ciganos de Triana eram açougueiros. Mas também é possível que essa fama tenha se dado porque eles realmente carregavam armas consigo.

Uma pesquisa realizada pelo historiador espanhol Juan José Iglesias Rodriguez no Arquivo Histórico Municipal de El Puerto de Santa María, em Cádiz, aponta que entre os anos de 1766 a 1801, a maioria das mortes executadas por ciganos na cidade foram cometidas com uma faca, então conhecida como “cuchillo flamenco”. E essas armas eram tão temidas, que chegaram a ser proibidas no país.

Manual del baratero, 1849

No entanto, a proibição não deve ter durado ou não funcionou por muito tempo. É possível encontrar manuais sobre como manejar uma faca cigana, com dicas de golpes e recursos em ataques ou defesas. Um desses livros é o Manual del baratero – o arte de manejar la navaja, el cuchillo y la tijera de los jitanos (Manual do enganador – ou arte de manejar a navalha, a faca e a tesoura dos ciganos), publicado em 1849 de forma anônima por M. de R.

A imagem do cigano bravio, que briga por qualquer coisa, foi divulgada por diversos pintores, gravuristas e escritores do século XVIII e do XIX. E não são apenas os homens que brigavam com essas armas. As ciganas também foram retratadas com punhais para se defender. Em 1845, o francês Mérimée escreveu a novela Carmen, famosa com a ópera de Bizet, de 1875, que fala sobre a cigana que leva uma navalha presa em uma liga em sua perna e fere uma colega da fábrica de tabaco, onde trabalham.

Já Demófilo, escritor, antropólogo e folclorista espanhol, em sua “Colección de cantes flamencos recogidos y anotados” de 1881, apresenta os versos flamencos:

Gravura de Paul Gustave Doré (1832-1883)

No te metas con la Lola;
La Lola tiene un cuchiyo
Pa defendé su persona.

No te metas con la Nena;
La Nena tiene un cuchiyo
Pa er que se meta con eya.

No entanto, sabe-se também que os ciganos foram condenados injustamente por diversos crimes que não cometeram. Perseguidos, eram bodes expiatórios de diversas culturas, e assim também foi na Espanha.

Tratar dos ciganos como um povo extremamente agressivo, seria cair nesse tipo de estereótipo, que só aumenta o preconceito contra eles. Mas ignorar por completo que o punhal era um elemento importante em sua cultura seria leviano. Podemos construir bailados artísticos para representar esse tema. E estamos cheios de exemplos interessantes para nos inspirar 😉 .

Brigitte Angel

Cena do filme Carmen, de Carlos Saura (1983), baseado nas obras de Mérimée (1845) e Bizet (1875).

 

Filme Bodas de sangre, de Carlos Saura (1981), baseado no texto de Frederico Garcia Lorca (1933).

 

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2 comentários sobre “Ciganos e punhais – mitos e histórias

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