Ética na Dança Cigana

Quando comecei a fazer Dança Cigana, nove anos atrás, havia poucos lugares sérios com aulas de dança em São Paulo. Por outro lado, os lugares que davam aula sem conhecimento histórico ou técnico, focando apenas na recreação ou em algum aspecto místico, desabonavam a Dança Cigana. Parecia fácil, bastava balançar a saia. Festa, havia a dos Sbanos uma vez por ano e era ansiosamente esperada. De surpresa, aparecia uma ou outra. Quando as Estrellas Gitanas (o grupo onde estudei) chegavam, sempre havia admiradores, gente que nos via realmente como estrelas.

Com o tempo, a minha geração foi se aprimorando e muitas começaram a formar suas turmas. A Dança Cigana foi ganhando espaço, e hoje temos muitos bons professores e muitas festas e feiras também. E se antes dançávamos mais Rumba e outros estilos tradicionais, nos últimos anos tive a oportunidade de conhecer novos estilos com professoras internacionais, como Miriam Peretz (Israel), Rana Gorgani (Irã), Sonia Galvão (Índia), e Paola Blanton (Macedônia).

Essa mudança é fantástica. Abriu as portas para o conhecimento da cultura cigana para o público em geral e abriu um novo mercado também – muitas amigas hoje trabalham seriamente apenas com a Dança Cigana. Com muitos amigos tenho fortes parcerias. Jade Amud é uma delas, com quem já dancei em seu grupo Sarali Gitana; também já dancei com minha ex-professora Vida Santini; fui convidada a participar do grupo Balkanik Explosion, da Paolinka, através da Esmeralda Garcia; e já escrevi texto com a Lu Barcelos, do Rio de Janeiro. Já fui convidada a dar workshop em outros grupos, e quando não posso dar aula, indico meus amigos.

O aspecto negativo da atualidade é que muitas pessoas agem de maneira pouco ética ou sem transparência. Enquanto alguns se cobrem de um dito misticismo cigano para justificar sua saia rodada, ao mesmo tempo trabalham com uma concorrência desleal, como se alunos fossem meros clientes ou mercadorias. O que vale é ter mais aluno. A relação amistosa com o outro profissional parece pouco importar fora das festas.

Utilizando um exemplo, se você contratasse um amigo que fizesse seu trabalho de maneira correta, e pouco tempo depois ele tivesse uma nova oportunidade, tenho certeza que ficaria feliz por ele. Mas e se ele levasse consigo sua carteira de clientes? Você acharia que faz parte do jogo? E se utilizarmos esse exemplo na Dança Cigana, como iremos tratar os outros profissionais – como parceiros leais, colegas conhecidos ou concorrentes? E qual é o limite pra concorrência entre nossos “amigos” gitanos? Há clareza e honestidade na relação entre os profissionais?

E quem age dessa maneira, será que acredita que está formando relações harmônicas? A meu ver, é o contrário. Cria desarmonia.

É preciso mesmo falar em “valores ciganos”, como se quem estivesse nesse meio tivesse alguma ligação mágica? Não, meus amigos, bastam apenas os valores humanos, basta apenas ter ética. Não existe mágica nisso.

Essas são algumas reflexões que tenho tido nos últimos tempos, e que acredito que servem a professores e alunos para melhorar nossas práticas. Que há espaço para todos não tenho dúvida. Mas deve existir bom senso e respeito. E é de gente assim que precisa a cultura cigana, e não de desagregadores.

Brigitte Angel

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6 comentários sobre “Ética na Dança Cigana

  1. migskriston disse:

    Querida Bri, a ética é a principal virtude que mais falta em nosso país e em nosso povo.

    Quem rouba, roubado três vezes será.

    Estas pessoas falsas de quem me informou levaram sua carteira, mas jamais poderão levar
    o seu conhecimento, a sua dança, o seu estilo único de dançar, afinal, o mais belo da dança cigana, ao meu ver, é esta liberdade de improviso criativo e sua essência sagrada e até mesmo, transcendente, assim permitindo o desabrochar daquilo que realmente somos. Ninguém pode roubar a sua essência.

    Que sua luz brilhe cada vez mais, querida Bri!!

    Beijos! Jade Amud

  2. migskriston disse:

    Vou completar…rsrs para se atingir esta essência e beleza, esta intuitividade na dança só é possível com conexão e quem não tem ética não consegue esta conexão, por mais que se estude, é algo que somente alguns grupos de ciganos conhecem, e você sabe disso. Brilhe, Bri!! e deixe que a justiça do universo aja…

    Jade Amud

  3. Lu Barcelos disse:

    Concordo plenamente San, como a falta de ética é triste… Nunca se cresce apunhalando as costas dos outros, ainda mais quando a pessoa ajudava… eu sinceramente me surpreendo a cada dia mais com esses seres humanos… não sei como ele têm a coragem de fazer isso.. Mas agindo correto Deus ajuda. Beijos com carinho!

  4. maria carolina disse:

    Gostei, mais uma vez, muito deste seu relato, sim!? Tenho percebido maneiras de agir muito desagradáveis e pouco recomendadas neste meio. Porém, tenho fé que las cosas ván a cambiar con el tiempo! Seguro que ván! Estamos aprendendo. E acho muito útil e oportuno vc escrever sobre isto. Gracias!

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