Triana, que um dia foi um bairro cigano…

Sevilla-TrianaOs primeiros registros da presença cigana na Espanha são do século XV. Os documentos falam de um povo colorido e alegre que havia chegado do oriente. Contrastavam com os espanhóis vestidos em negro, em uma época em que os corantes eram artigo de luxo e foram o principal produto de uma grande colônia dos reinos ibéricos: o Brasil.

Por volta de 1740, os ciganos chegaram em Sevilha, cidade separada pelo rio Guadalquivir. Foram assentados fora dos muros da cidade, depois de sua margem direita, no bairro chamado Triana. Apesar da separação física, tornou-se uma população integrada aos não-ciganos. Trabalhavam como ferreiros, açougueiros e exerciam tantos outros trabalhos importantes para a cidade.

Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Sevilla in  Civitates Orbis Terrarum 1598.

Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Sevilla in Civitates Orbis Terrarum 1598.

Era um povo pobre, mas pacífico e muito unido. Em suas casas, cortiços e assentamentos de clãs diversos o que prevalecia era a generosidade.

Era também um povo muito alegre. Ali nasceram muitos dos principais bailaores flamencos de Sevilha, que formaram um bailado dentro de sua própria casa e nos pátios, com amigos e vizinhos. Ali, o flamenco era circular, e não de palco. Com participantes, e não expectadores. Era um bailado de força, graça, comicidade e provocação sexual. Em Triana, o flamenco era celebração e festa com improviso, longe das questões comerciais que marcam os belíssimos shows que vemos hoje em dia, cheios de ensaios, cenários e figurinos.

Flamenco gitano (13)Apesar dos mais de 200 anos de boa convivência, no final da década de 1950, por uma decisão governamental toda população cigana foi expulsa de Triana, em nome da especulação imobiliária e talvez também pelo preconceito e motivos ideológicos. Nas palavras da bailaora Matilde Coral, aquele foi “O dia dos cristais quebrados”.

As mudanças foram feitas às pressas. As casas foram destruídas. Os ciganos foram espalhados pelos bairros periféricos de Sevilha, passando a viver em guetos. Muitos grupos se separaram e a generosidade foi se acabando. Outros tantos foram enviados para pequenos prédios, misturados a outros marginalizados da cidade, e logo a criminalidade rompeu a cultura cigana, estilhaçada como um cristal que cai ao chão. Em pouco tempo, toda a história viva de Triana se perdeu.

Em 23 de fevereiro de 1983, mais de 20 anos depois de sua expulsão, várias famílias foram reunidas em um teatro para reviver o flamenco puro de Triana. O encontro foi uma verdadeira festa flamenco gitana de riso, cante e dança. A gravação permaneceu inédita e só em 2013, 30 anos depois, o material foi transformado no documentário “Triana pura y pura”. Uma festa de despedida que nos apresenta um flamenco praticamente perdido, cheio de arte e improviso. Despedida, mas que celebra a vida.

Brigitte Angel

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2 comentários sobre “Triana, que um dia foi um bairro cigano…

    • Brigitte Angel disse:

      Olá, Sandra! Espero que o blog te ajude nas pesquisas 🙂 Mas por enquanto estamos trabalhando nas aulas sobre Espanha e Leste Europeu, então vai demorar pra ter um textinho sobre oriente 😉 bjo!

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